Relatório preliminar do Cenipa aponta mau tempo e histórico de falhas em helicóptero que matou cantor Rick e outras quatro pessoas na Serra Catarinense

    Documento divulgado nesta quinta-feira (22) revela detalhes dos últimos minutos de voo, problemas anteriores em sistemas da aeronave e ausência de gravações da caixa-preta. Acidente aconteceu no Parque Nacional de São Joaquim, em Urubici.

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    O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou nesta quinta-feira, 22 de outubro, o relatório preliminar sobre a queda do helicóptero que provocou a morte do cantor Rick, da dupla Rick e Renner, e de outras quatro pessoas na Serra Catarinense.

    O acidente aconteceu no dia 21 de setembro, quando a aeronave Bell 430 colidiu contra uma área de mata na encosta do Morro Convento dos Padres, no Parque Nacional de São Joaquim, em Urubici. Os destroços foram encontrados no dia seguinte, após uma operação de buscas que mobilizou diversas equipes de resgate.

    O documento apresenta informações sobre as condições meteorológicas, o histórico de manutenção da aeronave e os últimos momentos do voo. Entre os pontos analisados estão a presença de nuvens densas, a baixa visibilidade e relatos de falhas anteriores nos geradores elétricos e no piloto automático.

    O Cenipa ressalta que a investigação ainda está em andamento e que os fatores apresentados não representam conclusões definitivas sobre as causas do acidente.

    Helicóptero atingiu montanha a 1.686 metros de altitude

    Conforme o relatório, o helicóptero decolou às 10h49 do Aeródromo Costa Esmeralda, em Porto Belo, no Litoral Norte catarinense, com destino à Serra Catarinense.

    O planejamento inicial previa uma parada em Criciúma, seguida de deslocamento para São Joaquim, onde os ocupantes realizariam compromissos e visitariam uma vinícola.

    Entretanto, as condições meteorológicas desfavoráveis na região Sul do estado levaram à alteração do roteiro, com o cancelamento da parada em Criciúma.

    Por volta das 11h32, um morador de Urubici registrou imagens do helicóptero voando em direção à Serra da Boa Vista, momentos antes de desaparecer em meio a uma espessa camada de nuvens.

    Câmeras de segurança também captaram o som dos motores da aeronave, que aumentou de intensidade antes de cessar abruptamente às 11h32min37s.

    A aeronave atingiu árvores na encosta norte do Morro Convento dos Padres, a 1.686 metros de altitude, próximo ao cume da montanha, que chega a aproximadamente 1.790 metros.

    A ocorrência foi classificada como CFIT, sigla em inglês para Voo Controlado Contra o Terreno, situação em que uma aeronave em voo colide involuntariamente contra o relevo.

    Mau tempo é um dos fatores investigados

    O relatório destaca que uma frente fria avançava pelo Sul do Brasil no momento do acidente, provocando chuva, nuvens baixas, nevoeiro e redução significativa da visibilidade.

    Avisos meteorológicos já indicavam condições desfavoráveis para voos na região da Serra Geral, especialmente devido ao encobrimento de montanhas.

    Imagens registradas pelo Destacamento de Controle do Espaço Aéreo do Morro da Igreja, localizado a aproximadamente oito quilômetros do ponto de impacto, confirmaram a presença de nevoeiro intenso e baixa visibilidade.

    Essas condições estão entre os fatores analisados pelos investigadores para compreender as circunstâncias da colisão.

    Caixa-preta não registrou conversas do voo

    Uma das informações que chamam a atenção no relatório é a ausência de gravações do voo no equipamento conhecido como caixa-preta.

    Embora a categoria de operação da aeronave não exigisse obrigatoriamente um gravador de voz, o helicóptero estava equipado com um sistema CVR, responsável por registrar conversas e sons da cabine.

    No entanto, durante a análise realizada pelo Cenipa, os investigadores identificaram apenas gravações antigas relacionadas a procedimentos de manutenção.

    O áudio correspondente ao voo do acidente não foi encontrado.

    O relatório também aponta que o teste diário do gravador não constava na lista de verificação utilizada pela tripulação.

    Aeronave apresentava histórico de falhas

    Outro ponto importante identificado pela investigação envolve registros de problemas mecânicos anteriores ao acidente.

    Segundo o documento, o helicóptero apresentava falhas intermitentes nos geradores elétricos, principalmente em situações de umidade, como voos sob chuva ou dentro de nuvens.

    Também foram relatadas desconexões involuntárias do piloto automático, além de uma ocorrência anterior envolvendo vibração no rotor principal.

    Em março de 2026, a aeronave precisou realizar um pouso não programado no município de Ibiaçá, no Rio Grande do Sul, devido a uma forte vibração. O problema passou por manutenção e posterior avaliação.

    Os investigadores analisam esses registros para determinar se alguma das condições técnicas teve relação com o acidente.

    Até o momento, não há confirmação de que essas falhas tenham contribuído diretamente para a queda.

    Experiência dos pilotos também é analisada

    O piloto Antônio Roberto Nóbrega de Araújo possuía mais de 11.300 horas de experiência em helicópteros e habilitação válida para voo por instrumentos.

    Já o copiloto Leopoldo Barros Teixeira possuía licença de piloto comercial e acumulava 137 horas totais de voo, mas não tinha habilitação para voo por instrumentos.

    Segundo o relatório, o copiloto havia sido contratado para atuar exclusivamente naquele dia, em substituição ao profissional que normalmente acompanhava as operações.

    As condições operacionais e a composição da tripulação também fazem parte da investigação.

    Cinco pessoas morreram no acidente

    Além do cantor Rick, da dupla Rick e Renner, morreram no acidente o empresário Bruno Avelar, o videomaker Paulo Soares, o piloto Antônio Roberto Nóbrega de Araújo e o copiloto Leopoldo Barros Teixeira.

    A aeronave desapareceu durante o deslocamento pela Serra Catarinense e foi localizada no dia 22 de setembro, em uma área de difícil acesso, caracterizada por vegetação densa e terreno extremamente íngreme.

    O trabalho de localização e resgate mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros Militar, Polícia Militar, Polícia Científica e outros órgãos envolvidos na operação.

    Investigação continua

    O Cenipa recolheu equipamentos eletrônicos da aeronave, incluindo computadores de bordo, unidades de controle dos motores e sistemas de navegação, que passam por análises técnicas para tentar recuperar informações sobre os últimos instantes do voo.

    Os investigadores também utilizam registros de radar, imagens de câmeras de segurança, informações meteorológicas e depoimentos para reconstruir a sequência dos acontecimentos.

    O relatório final será divulgado após a conclusão dos exames e das análises técnicas.

    Um mês após a tragédia que comoveu Santa Catarina e o Brasil, o relatório preliminar apresenta novos elementos sobre os momentos que antecederam a queda, mas a determinação dos fatores que contribuíram para o acidente ainda depende da conclusão das investigações do Cenipa.