Foto: Wagner Urbano

Duas importantes reservas de araucária no Sul do país estão no centro de um debate envolvendo produtores rurais, ambientalistas e o governo federal.

Ela é uma das árvores mais antigas do planeta: 200 milhões de anos e sempre fez parte da cultura do Sul do Brasil.

“Eu conversava com o meu avô, ele plantava araucária, ele plantava, mas ele não plantava para ele, ele plantava para nós, para os meus filhos”, disse Adelar Mantovani, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Hoje o imponente pinheiro está diante de seu maior desafio: a sobrevivência. A floresta com araucária chegou a se espalhar por 200 mil quilômetros quadrados, do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

Mas, nos últimos cem anos, o homem explorou a floresta sem nenhum controle. Durante décadas, a madeira da araucária abriu espaço para a colonização e movimentou a economia.

Em 1993, quando o corte foi proibido, a área original da floresta com araucária já tinha sido reduzida a uma pequena sombra do que era. Corria um sério risco de desaparecer. E 26 anos depois, ela ainda não se recuperou.

A fiscalização encontra cenas de desmatamento ilegal. A produção agrícola continua avançando. Mas ainda é possível ter uma pequena amostra do que um dia a floresta já foi.

É o Parque Nacional de São Joaquim, criado em 1961 por iniciativa de um fazendeiro da serra catarinense.

João Rodrigues Mattos amava essa árvore e convenceu as autoridades a proteger a mata, as nascentes e os animais como a gralha azul, que costuma enterrar o pinhão e esquecê-lo. Assim, com ajuda do papagaio-charão e do pica-pau, acelera a expansão da floresta.

“Quando a gente cria uma unidade de conservação, a gente está garantindo que aquela amostra de natureza fique de uma forma permanente para as futuras gerações. O que a gente conhece hoje, pela Constituição, as futuras gerações também têm o direito de conhecer”, afirmou Angela Kuczach, diretora-executiva na Rede Nacional Pró Unidades de Conservação.

Só que hoje o traçado dessa unidade de conservação, marcada por cânions e cachoeiras, está ameaçado.

Quando o Parque Nacional de São Joaquim foi criado, na década de 1960, foi relativamente bem aceito na região. Mas a regularização fundiária nunca foi concluída. Muitos proprietários não receberam indenização nem saíram das fazendas.

Uma das mais bonitas áreas da região é da mesma família há mais de 100 anos. Em 2016, pela lei, ela passou a fazer parte do parque. Só que os proprietários não querem sair por dinheiro nenhum e agora lutam para que isso fique de fora da unidade de conservação.

“Por que que eu, a minha família, meus vizinhos vão ter que sair para vir alguém aqui para preservar alguma coisa aqui? Está tudo preservado”, disse o pecuarista José Carvalho, o Nano.

Nano, que cria gado dentro do parque, é de uma associação que reúne proprietários de terras na região. Eles apoiam um projeto de lei que reduz a área em mais de 20% de 49 mil para 39 mil hectares, e que está na Comissão de Meio Ambiente do Senado pronto para ser votado.

Pela proposta, sairiam do parque áreas como a de Nano e outras onde até uma mineradora quer explorar carvão. A justificativa é que o parque está em área com vocação rural e tem impedido o desenvolvimento da região.

Ambientalistas dizem que é um absurdo.

“É um crime contra a natureza, é um crime contra a sociedade brasileira porque os parques são de interesse público, são bens de toda a sociedade”, disse o ambientalista Wigold Schäffer, coordenador da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi).

Perto dali, há quem mostre que é possível explorar e respeitar a natureza ao mesmo tempo. No entorno das unidades de conservação, pequenos agricultores colhem o pinhão da araucária para comer e para vender. A árvore é sustento e também faz parte de uma cultura que passa de geração para a geração.

Na época do pinhão, Joelci sai cedo para colheita. Com esporas nos pés, ele sobe rápido no pinheiro e vai tirando a pinha. Eles vão ser a refeição da família e dos amigos, na chapa, cozido ou na forma de paçoca. O chimarrão acompanha, é claro.

Joelci é grato à árvore.

“Ela dá um retorno bom, e é uma das protetoras da água também.”

“Não adianta ter a floresta e não ter gente. É possível conviver? É possível”, diz Natal João Magnanti, engenheiro agrônomo. “Se a gente olhar do ponto de vista estratégico, nós estamos conservando um patrimônio histórico, cultural e alimentar mundial.”

Por lei, quando o governo declara uma área unidade de conservação, toda a região passa a ser de posse e domínio públicos e a partir daí começa o processo de desapropriação para indenizar os proprietários.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que nenhuma alteração em limites de unidades de conservação vai colocar em risco qualquer bioma ou qualquer tipo de vegetação em qualquer lugar do Brasil.