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Foto: Wagner Urbano

Pequenas no tamanho, mas grandes no impacto econômico e social, as frutas vermelhas vêm ganhando espaço no agronegócio catarinense. Na Serra Catarinense, culturas como mirtilo, framboesa e amora já representam uma alternativa concreta de diversificação produtiva e geração de renda para agricultores.

Adaptadas ao clima de altitude e à grande amplitude térmica da região, essas frutas passaram a ocupar áreas antes dependentes de ciclos mais longos, como o da madeira. O movimento envolve não apenas a produção agrícola, mas também agroindústria, turismo rural e até mudanças no estilo de vida de famílias que deixam os centros urbanos para investir no campo.

A expansão ocorre com base em planejamento e suporte técnico contínuo, com destaque para o trabalho da Epagri e da Embrapa, que acompanham produtores em diferentes municípios serranos.

Do consumo urbano ao cultivo em altitude

O interesse pelas frutas vermelhas começa nas cidades. Em Florianópolis, por exemplo, estabelecimentos gastronômicos chegam a utilizar dezenas de quilos por semana durante o verão, com destaque para sabores à base de mirtilo, cada vez mais populares entre consumidores.

Já na Serra, o cultivo ganhou escala ao longo dos anos. Em Urubici, produtores iniciaram o plantio ainda nos anos 2000 após identificarem a semelhança climática com regiões frias da América do Sul. O sucesso está diretamente ligado à amplitude térmica: madrugadas frias e tardes mais quentes favorecem o acúmulo de açúcares naturais nas frutas, elevando qualidade e valor de mercado.

Hoje, propriedades serranas já reúnem dezenas de famílias parceiras e produzem toneladas por ano, com frutas destinadas tanto ao consumo in natura quanto à indústria. Parte da produção passa por processos de rastreabilidade, armazenamento em câmaras frias e transformação em derivados como geleias, sobremesas e produtos congelados.

Alternativa à madeira e diversificação produtiva

Para muitos municípios da região, as frutas vermelhas surgem como alternativa estratégica diante da fragmentação das propriedades e do longo ciclo da silvicultura. Enquanto culturas como o pinus podem levar anos até o retorno financeiro, o mirtilo, por exemplo, garante renda anual mais previsível.

Extensionistas da Epagri destacam que a atividade oferece boa rentabilidade mesmo em pequenas áreas, além de contribuir para a permanência das famílias no campo, melhoria ambiental e qualidade de vida no meio rural.

Propriedades em cidades como Otacílio Costa têm sido utilizadas como unidades de referência técnica, com testes de cultivares, manejo e adaptação ao microclima local. O trabalho inclui parcerias com centros de pesquisa e foco crescente em práticas sustentáveis, com uso de insumos naturais, energias renováveis e gestão consciente de recursos hídricos.

Turismo rural e novo estilo de vida

Além da produção, as frutas vermelhas também impulsionam o turismo rural e o chamado “neorruralismo”. Em diversos pontos da Serra, visitantes podem colher frutas diretamente no pomar, degustar geleias artesanais e vivenciar experiências ligadas ao campo.

O modelo integra produção agrícola, gastronomia e hospitalidade, criando novas oportunidades de renda e fortalecendo a identidade regional. Em alguns municípios, jovens produtores têm investido na transformação das frutas em produtos gourmet, ampliando a distribuição para o litoral e outros estados.

Da sobremesa servida em restaurantes serranos às confeitarias urbanas, o que chega à mesa carrega muito mais do que sabor. Traz consigo o trabalho coletivo iniciado no pomar, o conhecimento acumulado ao longo dos anos e as condições climáticas únicas da Serra.

Pequenas na aparência, as frutas vermelhas vêm se mostrando gigantes em potencial, sustentando famílias, movimentando o turismo e ajudando a redesenhar a economia de municípios inteiros em Santa Catarina.