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Moradores da Serra Catarinense que notaram fumaça nos arredores do Parque Nacional de São Joaquim (PNSJ) nos últimos dias não precisam se preocupar: entre os dias 1º e 11 de julho, o parque realizou, pela primeira vez em sua história, ações práticas de Manejo Integrado do Fogo (MIF). A estratégia está prevista no Plano de Manejo Integrado do Fogo da unidade, elaborado em 2023 com a participação de pesquisadores do Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração Biodiversidade de Santa Catarina (PELD-Bisc), e é reconhecida como uma das principais ferramentas para prevenir incêndios de grandes proporções nos ecossistemas abertos, incluindo os campos de altitude. A operação reuniu a gestão do Parque, servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia AdaptaVeg (INCT AdaptaVeg) e do PELD-BISC, Agentes Temporários Ambientais (ATAs) e moradores da localidade e foi conduzida sob rígidos protocolos técnicos, sem qualquer perda de controle ou situação de risco.

Nem todo fogo é destruição: o manejo planejado do fogo

Desde 2020, o PNSJ vem sendo alvo de incêndios criminosos que já atingiram centenas de hectares de campos e áreas florestais, ameaçando a biodiversidade, pesquisas científicas e propriedades do entorno. Diante desse cenário, o parque decidiu colocar em prática o MIF: o uso planejado, técnico e seguro do fogo para reduzir o acúmulo de material combustível — a vegetação seca que alimenta grandes incêndios. Com isso, busca diminuir a intensidade de futuras queimadas descontroladas e contribuir para a conservação dos campos de altitude, um dos ecossistemas mais característicos da Serra Catarinense.

As atividades começaram com a construção de aceiros — que são faixas de terreno onde a vegetação é removida para interromper a propagação do fogo — ao redor de sete blocos experimentais de pesquisa. Em seguida, as equipes realizaram as queimas prescritas, sempre avaliando previamente vento, temperatura, umidade da vegetação e quantidade de material combustível, além de testes em pequenas áreas antes de cada operação.

À frente das operações esteve o analista ambiental do ICMbio Anivaldo Chaves, com cerca de 25 anos de experiência em manejo do fogo, ao lado da equipe do PNSJ e dos Agentes Temporários Ambientais. Durante toda a operação, não houve perda de controle das queimadas nem registro de situações de risco, resultado atribuído ao planejamento prévio, ao acompanhamento constante das condições meteorológicas e à atuação de equipes capacitadas.

“Trabalhando com o manejo do fogo, aprendi que o fogo, por si só, não é bom nem ruim. O que causa danos é seu uso sem planejamento, sem controle e sem os cuidados necessários. O Manejo Integrado do Fogo representa exatamente essa abordagem: integrar o conhecimento técnico e o conhecimento tradicional para prevenir e reduzir os efeitos negativos dos incêndios florestais, especialmente em condições críticas e imprevisíveis, contribuindo para a conservação da paisagem e da biodiversidade”, explica Anivaldo.

A gestão do parque reforça que o Manejo Integrado do Fogo não é a liberação indiscriminada do uso do fogo. Toda queima depende de autorização dos órgãos competentes, planejamento técnico e acompanhamento de profissionais habilitados — queimar sem autorização continua sendo infração ambiental e pode configurar crime.

As pesquisas científicas mostram que o uso periódico do fogo, quando planejado e associado ao pastejo extensivo, ajuda a manter a biodiversidade e reduz o acúmulo de biomassa seca — justamente o que alimenta incêndios de alta intensidade. Por outro lado, a ausência prolongada de fogo e pastejo favorece o avanço de arbustos sobre os campos naturais, formando os chamados “vassourais”, que reduzem a diversidade de espécies e aumentam o risco de incêndios severos. O manejo adequado dos campos também protege as áreas florestais presentes no Parque, ao reduzir a intensidade de incêndios que poderiam atingi-los.

Segundo Rafael Barbizan Sühs, pesquisador do INCT AdaptaVeg, “o que está acontecendo no Parque Nacional de São Joaquim é um exemplo concreto de como a pesquisa científica pode orientar a gestão ambiental. Há mais de uma década, pesquisadores que hoje integram o INCT AdaptaVeg e o PELD-BISC desenvolvem experimentos com o uso do Manejo Integrado do Fogo, produzindo evidências que hoje subsidiam ações de conservação. O INCT AdaptaVeg foi criado justamente para gerar conhecimento que ajude a adaptar os ecossistemas às mudanças ambientais e climáticas. Ver esse conhecimento sendo incorporado à gestão de uma unidade de conservação demonstra como o investimento em pesquisa de longo prazo pode gerar benefícios concretos para a conservação da biodiversidade e para a sociedade”.

Diálogo aproxima parque, pesquisadores e moradores

Além das atividades de campo, o Parque Nacional de São Joaquim promoveu um encontro entre gestores, pesquisadores e moradores do parque para ampliar o diálogo sobre a conservação dos campos de altitude.

A reunião contou com cerca de 24 participantes e permitiu que moradores esclarecessem dúvidas sobre o uso planejado do fogo, sua relação com o manejo dos campos e os procedimentos necessários para a realização de queimas autorizadas em propriedades particulares. O encontro colaborou para esclarecer uma percepção comum de que todo fogo representa, necessariamente, um problema ambiental. Diferente dos ambientes florestais, na vegetação campestre, o fogo faz parte da dinâmica ecológica e histórica da paisagem, e seus efeitos dependem de como, quando e com que intensidade ele é aplicado. Moradores compartilharam experiências próprias com o uso tradicional do fogo no manejo dos campos de pastagem, enquanto pesquisadores apresentaram as evidências científicas produzidas na região — um encontro entre saberes percebido por todos os presentes como fundamental para fortalecer a confiança entre comunidade e unidade de conservação.

Para a moradora e guia de turismo Alessandra Munareto Mathias, “essa reunião foi um importante passo para a relação entre a gestão do parque e os moradores porque, pela primeira vez, a gente se sentiu parte do processo. Hoje, tudo está preservado pelo amor que nós temos pelo local, pelas nossas origens. Fiquei muito feliz com a reunião porque senti que pode haver diálogo, pode existir um entendimento entre moradores, parque e pesquisadores, sem um clima de desconfiança ou de conflito. Muitas coisas podem melhorar quando existe esse entendimento.”

A gestão do Parque Nacional de São Joaquim destaca que a implementação do Manejo Integrado do Fogo representa um marco na estratégia de conservação da unidade e reforça a importância da cooperação entre instituições públicas, comunidade local e pesquisa científica. “Nosso objetivo é conservar os campos de altitude e as florestas associadas por meio de ações planejadas, baseadas em critérios técnicos, científicos e legais. Essa iniciativa também fortalece o diálogo entre o ICMBio, pesquisadores e moradores, reconhecendo que a conservação do parque depende da construção conjunta de soluções para reduzir o risco de grandes incêndios e proteger esse importante patrimônio natural”, afirma Paulo Santi, gestor do Parque Nacional de São Joaquim.

A experiência realizada em julho representa um primeiro passo para consolidar a implementação do Manejo Integrado do Fogo no Parque Nacional de São Joaquim. Ao longo das atividades, foram manejados aproximadamente 250 hectares de campos de altitude – o equivalente a menos de 2% dos cerca de 15 mil hectares da Unidade de Conservação. Embora represente uma pequena parcela dos campos do parque, a iniciativa demonstra o potencial dessa estratégia, que alia pesquisa científica, planejamento técnico e diálogo com a comunidade para a conservação dos campos de altitude e da paisagem da Serra Catarinense.