
Dezoito anos depois de sua última visita a São Joaquim, na Serra Catarinense, a enóloga argentina Susana Balbo retornou à cidade e encontrou nos vinhos de altitude de Santa Catarina um potencial que definiu como um “diamante a ser lapidado”. Ao elogiar a qualidade dos rótulos, destacou a importância do trabalho conjunto para fortalecer a identidade da região e ampliar seu reconhecimento no mercado.
A avaliação marcou a palestra internacional do Simpósio Vinhos de Altitude de Santa Catarina. Realizada em 29 de outubro, na Casa da Cultura, em São Joaquim, a oitava edição consolidou o encontro como espaço de formação técnica e intercâmbio para a vitivinicultura catarinense. Pesquisa, clima, economia do vinho, tributação e enoturismo compuseram uma agenda voltada aos desafios e às oportunidades do setor.
“Voltar a São Joaquim depois de 18 anos e conhecer os vinhos produzidos aqui é perceber o potencial desta região. Os vinhos de altitude são um diamante a ser lapidado. Trabalhar em conjunto será fundamental para desenvolver esse potencial, fortalecer a identidade regional e apresentá-la ao consumidor”, afirmou Susana.
Primeira mulher a se formar em Enologia na Argentina e fundadora da vinícola que leva seu nome, ela compartilhou experiências de inovação, sustentabilidade e expansão do negócio familiar. Sua apresentação conectou a elaboração de vinhos à construção de marca e à diversificação das atividades por meio da gastronomia e da hospitalidade.
Conhecimento para fortalecer o setor

Com o tema “Altitude que conecta: conhecimento, mercado e novas perspectivas”, o simpósio reuniu pesquisadores, produtores, empresários e representantes do poder público. A programação aproximou os desafios dos vinhedos das decisões de gestão e comercialização das vinícolas.
Na solenidade de abertura, o presidente da Associação Vinhos de Altitude de Santa Catarina, Ernani Luiz Garcia, destacou a contribuição dos palestrantes e parceiros para a continuidade do encontro. “O simpósio reúne conhecimentos que precisam caminhar juntos. Da pesquisa e do cuidado com os vinhedos à compreensão do mercado e ao desenvolvimento do enoturismo. Cada palestrante trouxe contribuições para as decisões que tomamos nas vinícolas e para os desafios que compartilhamos como região. Essa troca, construída com nossos parceiros, fortalece o setor e nos ajuda a planejar seu futuro”, afirmou.
A agenda acompanha questões que mobilizam o mercado internacional. Segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), o consumo mundial foi estimado em 208 milhões de hectolitros em 2025, queda de 2,7% em relação ao ano anterior. A entidade relaciona esse movimento às mudanças nos hábitos de consumo e às pressões econômicas sobre o poder de compra. O Brasil esteve entre os mercados que registraram crescimento no período.
Apoiador do evento, o Sebrae/SC é parceiro da Associação Vinhos de Altitude na realização do simpósio e em outros projetos de desenvolvimento do setor. Para o gerente regional da instituição na Serra Catarinense, Altenir Agostini, a cooperação contribui para transformar os diferenciais da região em oportunidades de negócios. “Nossa parceria com a Vinhos de Altitude tem continuidade e envolve diferentes frentes de desenvolvimento do setor. O simpósio faz parte desse trabalho ao aproximar conhecimento e necessidades dos empreendedores. Quando fortalecemos a gestão das vinícolas e qualificamos as experiências oferecidas aos visitantes, os resultados alcançam também a hospedagem, a gastronomia, o comércio e os serviços da região”, destacou.
Enoturismo conecta vinícolas e desenvolvimento regional

O painel “Turismo de experiência no enoturismo” reuniu Eduardo Luiz Moura, pesquisador e sócio da agência Na Trilha Certa, Altenir Agostini e Giovani Nunes, secretário adjunto de Turismo de Santa Catarina.
A conversa evidenciou que o crescimento do enoturismo depende da articulação entre a qualidade das experiências, a organização dos negócios e as condições de acesso aos destinos. Integrar vinícolas à hospedagem, à gastronomia e aos demais atrativos amplia as possibilidades de permanência e consumo dos visitantes, distribuindo oportunidades pela economia regional.
A identidade da Serra Catarinense foi apontada como um diferencial para estruturar essa oferta. Paisagens, histórias dos produtores e alimentos locais permitem criar experiências próprias, enquanto atendimento qualificado, facilidade de reserva e acompanhamento da satisfação ajudam a transformar o interesse pela região em visitas e novas recomendações.
Os indicadores turísticos reforçam essa relação. Segundo a Pesquisa Turismo de Inverno da Fecomércio SC, 20% dos turistas visitaram vinícolas da Serra Catarinense na temporada de 2026. O levantamento apontou ainda gasto médio de R$ 3.852 por grupo e compras no comércio local por 80% dos visitantes, indicadores referentes ao conjunto do turismo regional.
Mercado ilegal pressiona a competitividade
A circulação irregular de vinhos esteve entre os principais alertas do simpósio. Luciano Stremel Barros, presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF), apresentou dados sobre o mercado ilegal e seus impactos na cadeia produtiva.
Conforme os números expostos pelo palestrante, atribuídos à Receita Federal, as apreensões de vinhos ultrapassaram R$ 325 milhões entre 2020 e junho de 2026. O montante corresponde às mercadorias apreendidas, não à dimensão total do comércio irregular. “O vinho que entra irregularmente no país disputa espaço com empresas que recolhem impostos, mantêm empregos e investem na produção. Essa concorrência compromete o desenvolvimento do setor. Precisamos combinar fiscalização e informação ao consumidor, porque a procedência também deve fazer parte da decisão de compra”, ressaltou Luciano.
O debate relacionou tributação, concorrência desleal e perda de arrecadação, com destaque para a necessidade de articulação entre o setor produtivo e os órgãos de fiscalização.
Pesquisa, clima e economia do vinho
A programação técnica contou com o professor doutor Tiago Henrique de Paula Alvarenga, do IFSC Urupema, que apresentou o trabalho “Vinhos de Altitude de Santa Catarina: uma pesquisa com consumidores”, desenvolvido pela enóloga Cristiane Rota em sua dissertação de mestrado.
Mauro Savo abordou os desafios econômicos e comerciais na palestra “Economia do vinho: verdades inconvenientes sobre o mercado vitivinícola no Brasil”. João Felippeto, da Epagri, tratou de clima e manejo, conectando as condições locais às decisões tomadas nos vinhedos. A agenda incluiu ainda conteúdo sobre o uso do carvalho na elaboração dos vinhos.
O VIII Simpósio Vinhos de Altitude de Santa Catarina foi realizado pela Associação Vinhos de Altitude, com apoio do Sebrae/SC, patrocínio da Bayer e parceria da Prefeitura de São Joaquim, Epagri e São Joaquim Park Hotel.
Por Catarinas Comunicação — Assessoria Vinhos de Altitude – Texto: Lizzi Borges | _Fotos: Jair Sena





