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Durante a noite, quando o silêncio toma conta dos campos da Serra Catarinense, um invasor cada vez mais comum entra em cena. Em grupos que podem chegar a dezenas de animais, os javalis percorrem quilômetros em busca de alimento. Pelo caminho, deixam um rastro de destruição em lavouras, pomares, pastagens e nascentes, além de representar uma ameaça crescente para produtores rurais, animais domésticos e até para a população.

O problema, que há alguns anos era considerado pontual, hoje preocupa autoridades, entidades do agronegócio e quem vive no campo. Estima-se que mais de 200 mil javalis estejam espalhados por cerca de 236 municípios catarinenses, com forte concentração na Serra Catarinense, Meio-Oeste e Oeste do Estado.

Municípios como São Joaquim, Bom Jardim da Serra, Lages, Campo Belo do Sul, Capão Alto e Água Doce convivem diariamente com os prejuízos provocados por essa espécie exótica invasora.

Uma força destrutiva

Machos adultos podem ultrapassar os 200 quilos e, quando ameaçados, atacam com extrema agressividade. Além do porte avantajado, impressiona a velocidade de reprodução.

As fêmeas podem ter duas ninhadas por ano, com média de oito filhotes em cada gestação, fator que explica o crescimento acelerado da população.

Sem predadores naturais e com grande capacidade de adaptação, os javalis avançam sobre áreas agrícolas e até próximas das cidades.

Os danos vão muito além da destruição de plantações.

Eles revolvem grandes áreas de campo nativo em busca de alimento, destroem nascentes, atacam ninhos de aves que fazem a postura no solo e também representam perigo para rebanhos de bovinos, ovinos e outras espécies.

O impacto na maçã

Em São Joaquim, principal produtor de maçã do Brasil, os prejuízos também atingem os pomares.

A procura pelo sal presente nos fertilizantes faz com que os javalis revolvam completamente o solo, expondo raízes de plantas jovens e comprometendo o desenvolvimento dos pomares.

Além disso, os animais derrubam frutas, quebram galhos e provocam prejuízos que muitas vezes não são percebidos imediatamente, mas afetam diretamente a produtividade.

“Eles viram tudo de pernas para o ar”

O produtor rural Fabiano Bruning de Oliveira, de São Joaquim, conhece de perto essa realidade.

Segundo ele, os ataques são frequentes e causam grandes perdas.

Em uma única noite, um grupo com aproximadamente 40 javalis passou pela propriedade.

O resultado foi um cenário de destruição.

O solo completamente revolvido, maçãs espalhadas pelo chão e prejuízos que se repetem ano após ano.

Além das perdas econômicas, a preocupação é com a segurança.

Para proteger os terneiros, muitas vezes é necessário manter os animais próximos das casas.

Mesmo assim, o receio permanece.

Quem trabalha no campo sabe que encontrar um javali durante a noite pode representar risco de vida.

O trabalho dos controladores

Para conter o avanço da espécie existe um trabalho pouco conhecido pela população.

Os chamados controladores de javalis atuam dentro da legislação e seguem uma série de exigências legais.

O controlador Alexandre, que atua na Serra Catarinense, explica que o manejo depende de autorização dos proprietários das fazendas, cadastro no Ibama, registro no Exército, armas regularizadas e diversos documentos obrigatórios.

Somente após cumprir todas essas etapas é possível realizar o controle populacional.

Segundo ele, as equipes são acionadas pelos produtores quando os ataques aumentam.

Dependendo da situação, duas ou até três equipes trabalham juntas para tentar reduzir a população em determinada região.

O perigo invisível

Para Alexandre, os prejuízos mais preocupantes nem sempre são os que aparecem.

Os javalis são capazes de percorrer até 50 quilômetros em uma única noite, tornando-se potenciais transmissores de doenças que podem atingir a produção animal catarinense.

Santa Catarina é referência nacional na produção de carne suína, frango e leite.

O Estado possui reconhecimento internacional como área livre de peste suína clássica e de febre aftosa sem vacinação.

Uma eventual contaminação causada por javalis colocaria em risco uma cadeia econômica bilionária.

Além disso, os animais já são vistos cada vez mais próximos das cidades.

Embora tenham hábitos predominantemente noturnos, especialistas alertam que a expansão da população pode aumentar os encontros entre javalis e moradores das áreas urbanas nos próximos anos.

O desafio continua

Entre 2019 e 2024, mais de 120 mil javalis foram abatidos em Santa Catarina.

Mesmo assim, a população continua crescendo.

A Federação da Agricultura e Pecuária de Santa Catarina (Faesc) defende a desburocratização responsável do manejo, o fortalecimento das equipes autorizadas e ações permanentes de controle.

Desde 2023, Santa Catarina possui legislação específica autorizando o manejo sustentável da espécie.

Ainda assim, produtores afirmam que o problema está longe de ser resolvido.

Enquanto novas medidas são discutidas, quem vive no campo segue convivendo diariamente com um inimigo silencioso, que ameaça a produção agrícola, o meio ambiente, a economia e a segurança das famílias serranas.

Reportagem Especial – NotiserraSC