Por: Correio Lageano

 

Com a chegada do inverno, as abelhas ficam sem alimento e os apicultores precisam dar ração para que a produção de mel aconteça como o esperado na época da safra. A falta de flores no inverno, faz com que os produtores de mel misturem açúcar VHP, ou do tipo cristal, com levedo de cerveja e farinha texturizada de soja. Esses ingredientes fazem parte da fórmula da ração proteica e também de um tipo de bife, que é uma mistura energética para os insetos.

 

O apicultor José Alceu Perão, 63 anos, diz que a abelha rainha coloca menos ovos durante o inverno, porque sabe que terá menos alimento. Com o frio, as abelhas tendem a sair pouco das colmeias, o que também reduz a polinização e consequentemente, a quantidade de mel. Ele possui, na Localidade de Lambedor, no interior de Lages, 550 caixas de abelhas e trabalha na atividade há 36 anos. 

 

A ideia é aumentar a quantidade de caixas para 600 e cada uma, tem um alimentador com ração proteica e bife. “Eu deixo sempre uma reserva de mel para elas e também dou alimentação para estimular a rainha a continuar gerando abelhas. O ideal é manter sempre um enxame de 30 a 40 mil abelhas, na época de produção, no verão, vai para 80 a 100 mil abelhas por caixa”.

Ele conta que, na Serra Catarinense, a colheita do mel silvestre começa no fim de outubro, e também no início de novembro e de dezembro. Em janeiro, o apicultor conta que inicia a colheita do mel da árvore bracatinga, que ocorre a cada dois anos, sempre caindo em ano par, ou seja, no ano que vem, teremos mais mel de bracatinga disponível no mercado. “Eu vendo o quilo do mel silvestre, a R$ 18,90 para os supermercados e o mel de bracatinga vendo 800 gramas, a R$ 19,90, ele é mais rico em potássio do que o mel silvestre”.

Mel da bracatinga

Em 2018, o extensionista rural e engenheiro agrônomo da Epagri, de Bom Jardim da Serra, Áquila Schneider conta que a Epagri iniciou um trabalho de identificação geográfica do mel de melato da bracatinga. Trata-se de um mel diferente dos méis florais, pois ele é proveniente da coleta de uma substância açucarada das cochonilhas (insetos) que se alimentam da seiva da bracatinga. 

Essa substância é expelida pelas cochonilhas e tem o nome de melato, ou seja, não se trata de néctar. Esse melato é ingerido pelas abelhas e transformado em mel. “Este mel vem sendo estudado pela Universidade Federal de Santa Catarina, onde foram observadas características muito peculiares”.

A cor desse mel é escura e possui menos glicose que os méis florais. Por conta disso, ele é menos doce e não cristaliza. De acordo com Schneider, cerca de 98% desse mel de melato da bracatinga é exportado para a Europa e Estados Unidos, pois é muito apreciado por seus consumidores. Sua produção ocorre principalmente na Serra Catarinense, onde se destacam os municípios de Bocaina do Sul, Bom Retiro, Otacílio Costa, Urubici e Lages. “Nesses municípios, há a maior concentração de plantas de bracatinga infestadas com a cochonilha”.

Mel catarinense é premiado por sua qualidade superior

O mel produzido em Santa Catarina já venceu cinco títulos de melhor do mundo no Congresso da Federação Internacional de Associações de Apicultores (Apimondia). As razões para o sucesso da apicultura catarinense são tão numerosas quanto as medalhas conquistadas pelos produtores do Estado. 

Tudo começa com as condições geográficas de Santa Catarina, que garantem não só um produto de qualidade superior, como uma produtividade por quilômetro quadrado 12 vezes acima da média nacional. “Como nosso relevo é bastante acidentado, há algumas áreas que não são praticáveis para a lavoura, mas para a apicultura é o ideal. Há uma ampla variedade de mata nativa, uma flora apícola muito diversificada e inúmeros tipos de solo, vários microclimas nas regiões”, explica o extensionista rural da Divisão de Estudos Apícolas da Epagri, Rodrigo Durieux da Cunha.

Outro fator, segundo ele, é a capacidade técnica dos apicultores catarinenses. Eles têm disposição para aprimorar as técnicas de cultivo. “Há um trabalho muito intenso da Epagri, junto de outras instituições, como a Federação das Associações de Apicultores e Meliponicultores de Santa Catarina (Faasc) e instituições de ensino e pesquisa, para qualificar o cultivo, aumentando a produtividade e a qualidade”, afirma o extensionista.

Fonte: Secretaria de Estado de Comunicação

Especialista afirma que produtividade pode ser maior

Apesar de Santa Catarina ter a melhor produtividade do país, segundo dados do Congresso da Federação Internacional de Associações de Apicultores (Apimondia), o extensionista rural e engenheiro agrônomo da Epagri, de Bom Jardim da Serra, Áquila Schneider, garante que a produção pode ser ainda maior. Hoje, a produtividade por quilômetro quadrado é mais de 12 vezes acima da média nacional. 

Ele afirma que se o serrano trabalhasse mais com a apicultura, essa produção iria crescer bem mais, pois há espaço disponível. “A Serra Catarinense, historicamente, sempre foi menos produtiva. Por ser a região com o maior território do estado e menor densidade demográfica, dizemos que produz menos mel por metro quadrado. Porém, em volume total, é a região que mais produziu mel em 2018, em relação às outras”.

Schneider ressalta que Bom Retiro já foi o maior produtor catarinense por vários anos consecutivos. “Outro detalhe é a qualidade do mel, que certamente é uma das melhores do estado. Já fomos premiados em São Joaquim com o mel do canudo de pito (Escallonia bifida) e com o mel da carne-de-vaca (Clethra scabra), ambos méis de coloração muito clara e de sabor muito suave”.

Tecnologia 

Apesar de existirem locais para expandir a produção de mel no Estado, o especialista afirma que é preciso mais tecnologia. “A Argentina tem um território bem menor do que o Brasil e produz mais mel do que nós. Ou seja, o brasileiro ainda não aprendeu que mel dá dinheiro”. 

Através de equipamentos, instalações, manejo, plantio de espécies apícolas, alimentação artificial, diminuição de agrotóxicos, controle de pragas e doenças, e, melhoramento genético, o apicultor pode aumentar a produção de mel, segundo o extensionista rural e engenheiro agrônomo da Epagri, de Bom Jardim da Serra, Áquila Schneider.

Consumo

O preço do mel não está bom nesse ano, tem sido vendido, segundo Schneider, a R$ 4,50, o quilo, bem abaixo de 2017, quando alcançou R$ 12,00, o quilo. O principal motivo, segundo ele, é o excesso de mel no mercado internacional, que dita os valores.

Ele frisa que o brasileiro consome pouco mel, cerca de 300 gramas por habitante, ao ano. “Os europeus consomem cinco vezes essa quantidade. Recentemente, a Câmara de Deputados de SC aprovou o mel como item da cesta básica, o que poderá contribuir com o incremento de consumo”.

Morte das abelhas

Sobre esse tema, o especialista acredita que é um pouco sensacionalista dizer que a morte de abelhas é somente devido a água contaminada e agrotóxicos. “De uns 10 anos para cá, a morte delas têm aumentado, mas isso se deve a vários fatores, como desmatamento, mudança drástica do clima com períodos chuvosos ou secos por muito tempo, falta de alimento, entre outros”.

  • Em torno de 60 mil toneladas são produzidas por ano no país
  • A metade é exportada para cerca de 40 países 
  • Região da Amures possui uma média de 720 apicultores
  • Há 50 mil colmeias na região
  • Produção da Amures é de até 1,5 mil toneladas por ano
  • Produtividade Km²: SC 62 quilos e Brasil 5 quilos

Produção de mel em SC é de mais de 5 toneladas por ano

Santa Catarina possui 9 mil famílias rurais trabalhando com abelhas e 323 mil colmeias, segundo dados da Secretaria de Estado da Comunicação. O Estado tem a melhor produtividade do país, uma média de 62 quilos por quilômetro quadrado, contra cinco quilos no restante do Brasil.

Em 2018, Santa Catarina produziu 5.680 toneladas de mel, sendo o 4º estado brasileiro com maior produção de mel. É a maior produção por quilômetro quadrado do Brasil, com cerca de 62,8 de quilos por quilômetro quadrado, gerando uma média de 19 Kg por colmeia, ao ano. Enquanto que a média nacional, a produção é de cinco quilos por Km².  

De acordo com a edição mais recente do Inventário da Apicultura Catarinense, de 2016, 289 municípios catarinense têm alguma produção de mel. Os maiores produtores são, nesta ordem, Bom Retiro, Içara, Urubici, Santa Terezinha, Fraiburgo, São Joaquim e Anitápolis.

Além do mel, outros produtos da apicultura catarinense são pólen, própolis, cera bruta, núcleos, rainhas e apitoxina. A polinização também é importante, por exemplo, para o cultivo de macieiras.